Um médico que fatura bem pelo Lucro Presumido costuma ouvir, em rodas de conversa e até de alguns contadores, que a reforma tributária vai dobrar ou triplicar a carga da clínica em 2027. A frase mais repetida envolve uma alíquota de 27,5%. O problema é que esse número não tem nada a ver com o que uma clínica de saúde realmente recolheria. Para responder à pergunta certa, é preciso comparar o que existe hoje, o PIS/Cofins, com o que vem, a CBS, usando as mesmas regras de medição.
Quanto a clínica paga hoje de PIS/Cofins
No Lucro Presumido, regime da maioria das clínicas e médicos PJ com faturamento relevante, PIS e Cofins somam 3,65% sobre a receita. Esse é o ponto de partida da comparação, e ele tem uma característica importante: é uma tributação cumulativa, ou seja, a clínica paga os 3,65% e não aproveita nenhum crédito sobre o que gasta com insumos, aluguel, serviços ou fornecedores.
Guardar esse detalhe é o que evita o erro de comparação mais comum: confrontar uma alíquota nova, que admite créditos, com uma alíquota antiga que não admite nenhum. São lógicas diferentes, e medir só pela alíquota cheia distorce o resultado.
O que muda com a CBS a partir de 2027
A CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) foi criada pela EC 132/2023 e regulamentada pela LC 214/2025. Ela substitui integralmente o PIS e a Cofins, com vigência integral a partir de 2027. Não é um tributo a mais sobre a clínica: é a troca de um par antigo por um modelo novo de tributação do consumo.
A estimativa de alíquota nominal da CBS é de 8% a 9%, podendo chegar a cerca de 8,8%, com definição oficial esperada apenas para o último trimestre de 2026. Olhando só esse número bruto, parece quase o dobro dos 3,65% atuais. Mas a alíquota nominal não é o que a clínica paga. Dois fatores reduzem essa conta de forma relevante: o redutor setorial da saúde e os créditos da não-cumulatividade.
O redutor da saúde derruba a alíquota antes de qualquer crédito
A área da saúde tem um redutor setorial aplicado sobre a alíquota da CBS. A estimativa de trabalho do JT é de uma redução de cerca de 60% sobre a alíquota nominal (o percentual exato ainda está em consolidação na regulamentação). Na prática, isso significa:
- Alíquota pós-redutor estimada em cerca de 3,5% a 3,6% (a nominal multiplicada por aproximadamente 40%).
- Vinculação automática via CNAE/NBS na nota fiscal, sem necessidade de pedido formal.
- Esse patamar já fica próximo dos 3,65% atuais, e isso antes mesmo de descontar um único crédito.
Ou seja, o redutor sozinho já desmonta a ideia de que a saúde pagaria duas ou três vezes mais. A página sobre CBS na saúde detalha como esse redutor funciona e por que ele não se confunde com outros benefícios.
Os créditos da não-cumulatividade reduzem ainda mais
O diferencial central do novo modelo é a não-cumulatividade plena: ao contrário do PIS/Cofins cumulativo de hoje, a CBS permite abater créditos sobre insumos e serviços contratados. Isso joga a alíquota efetiva para um patamar inferior ao da alíquota pós-redutor, conforme o volume de créditos que cada clínica consegue aproveitar.
Só que essa amplitude varia muito de uma operação para outra, porque a lei impõe limites. O mapa geral é o seguinte:
- Folha de pagamento não gera crédito, o que pesa em clínicas com muitos profissionais CLT.
- Fornecedor no Simples Nacional gera crédito mínimo (alíquota muito baixa).
- Fornecedor no Lucro Presumido gera crédito mais relevante, o que muda o cálculo de quem contratar.
- Insumos de uso misto (pessoal e empresarial) têm crédito restrito, com análise caso a caso.
É por isso que não existe uma resposta única para "quanto vou pagar". Duas clínicas com o mesmo faturamento podem ter cargas efetivas diferentes só pela composição de despesas e fornecedores.
Então, vai pagar mais ou não?
Juntando as três peças (alíquota nominal de 8% a 9%, redutor da saúde de cerca de 60% e créditos variáveis), a tendência apontada é que a CBS para a saúde fique comparável ou levemente superior aos 3,65% atuais de PIS/Cofins. Veja o quadro de estimativas:
- Alíquota nominal CBS: 8,8% a 9% (estimativa).
- Pós-redutor da saúde: cerca de 3,5% a 3,6%.
- Efetiva real: inferior a 3,5% conforme os créditos aproveitáveis.
- Comparativo atual: 3,65% de PIS/Cofins, sem nenhum crédito.
A diferença entre "comparável" e "levemente superior" mora exatamente na qualidade do planejamento de créditos e fornecedores. Esse é o ponto onde a clínica que se preparar tem vantagem sobre a que apenas espera 2027 chegar. Lembre-se: a alíquota nominal só será definida no fim de 2026 e o percentual do redutor ainda depende de validação na regulamentação, então todo número aqui é estimativa de trabalho.
Os erros que distorcem a conta da CBS na saúde
Antes de concluir que a clínica vai quebrar com a reforma, vale revisar as armadilhas mais comuns:
- Usar a alíquota de 27,5%, que é CBS mais IBS sem redutor e sem crédito, como se fosse a da saúde.
- Comparar a alíquota nominal da CBS com o PIS/Cofins atual, ignorando o redutor e os créditos.
- Achar que a equiparação hospitalar protege da CBS, quando ela é regime de IRPJ/CSLL, mecanismo distinto.
- Deixar para 2027 o mapeamento de fornecedores, que leva meses para ser reorganizado.
Perguntas frequentes
A clínica vai pagar mais imposto com a CBS em 2027?
Depende do redutor da saúde e dos créditos. Com redutor de cerca de 60% e os créditos aproveitáveis, a tendência é que a CBS fique comparável ou levemente superior aos 3,65% atuais. Cada caso exige diagnóstico próprio e todo número é estimativa.
Quanto é PIS/Cofins hoje no Lucro Presumido?
São 3,65% sobre a receita, sem direito a crédito. Esse é o número de referência para comparar com a alíquota efetiva estimada da CBS.
A alíquota da CBS na saúde será de 27,5%?
Não. Os 27,5% correspondem à soma de CBS mais IBS sem redutor e sem crédito. A saúde tem redutor estimado em cerca de 60%, o que leva a alíquota pós-redutor para perto de 3,5% a 3,6%.
O que aumenta ou reduz a carga da CBS na minha clínica?
O redutor reduz a alíquota nominal de forma automática via CNAE/NBS, e os créditos reduzem mais conforme as despesas. Folha não gera crédito; fornecedor no Lucro Presumido gera crédito mais relevante. O resultado depende da composição de despesas de cada clínica.